Sobre os padrões estéticos da sociedade moderna

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Incrível como muitas vezes a sociedade nos faz enxergar o corpo humano como uma máquina. E como nos faz achar que as máquinas fora do padrão definido, estão com defeito e jamais funcionarão plenamente até se encaixarem como tal.

O estigma corporal na contemporaneidade deriva basicamente de um padrão estético imposto pela própria sociedade. As capas de revista, por exemplo, representam um padrão. Mas é o padrão mais distante da realidade, mais difícil de ser alcançado, porque se aproxima da perfeição. E como seres humanos, nada mais natural que buscar a perfeição, porque ela é capaz de nos entregar a aceitação completa das pessoas e esses dois conceitos se mostram bastante confortáveis à nossa consciência. No entanto, essa busca desenfreada gera em nós, homens e mulheres, um sentimento de frustração e inadequação. Como se fora daqueles padrões, não fôssemos saudáveis, desejáveis, belos e aptos ao consumo.

Esses padrões não respeitam biotipos. E aí reside seu maior erro, porque o corpo humano por si só é multidimensional, comporta várias formas e é até cruel eleger uma como a mais bonita e relegar às outras o ônus de buscar se assemelhar ao máximo a tal padrão.

Como se sabe, a sociedade vive em transformação. Assim também  é com os padrões. Por volta dos anos 40, por exemplo, mulheres sinuosas eram as preferidas em absoluto, sendo Marylin Monroe e Elisabeth Taylor provas vivas ok, nem tão vivas disso. A fartura representava uma mulher saudável, sensual e a aptidão para a maternidade. Então, a partir dos anos 60, a beleza feminina entrou no padrão Twiggy: mulher magérrima, com braços alongados, pernas finas, com  a juventude desenhada em seu corpo. Assim, o corpo passarela virou objeto de desejo das mulheres. A magreza tornou-se o novo padrão. Arrisco-me a dizer, pelo fato de ser magrinha e conhecer bem esse último panorama, que esse padrão também já foi ou está sendo derrubado. O modelo corporal mudou novamente em Julho de 99, quando a Vogue, uma das revistas de moda mais influentes do mundo, decretou a volta das curvas. Assim, desde então, tem sido o padrão corporal ocidental: o corpo violão brasileiro.

A busca por uma identidade corporal é muito mais comum na adolescência e no início da vida adulta, que é quando afirmamos nossa personalidade. A descoberta do corpo é, nesse sentido, de fundamental importância e, pela vontade de aceitação, buscamos pelo padrão dominante, o mais óbvio, o mais adorado. E é assim que nos tornamos escravos do próprio corpo, de frente pro espelho e nas academias, por trás dos regimes e das dietas malucas.

E não é o caso só das mulheres. O padrão dominante masculino também existe e é representado hoje por homens musculosos, mas atléticos. Os outros biotipos, como os magrinhos e gordinhos, ficam expostos à ideia de que se não malharem e transpirarem muito para chegar ao modelo, jamais serão aceitos pelo público feminino.


A mídia criou uma indústria corporal, que atiça os desejos das pessoas, enaltece imagens e padroniza corpos. E esses corpos, quando se vêem fora dos padrões, sentem-se inadequados, sujeitando as pessoas a se aventurar em busca de uma forma física ideal que, na verdade, não existe. 

Pesquisas indicam que apenas 4% da população feminina mundial se considera bonita e a maioria absoluta está em busca de mudanças no corpo. Quando essas mudanças derivam de uma postura autocrítica, de buscar ser saudável ao invés de simplesmente belo, menos mal. O problema reside quando se busca um padrão estético corporal simplesmente para se encaixar no conceito de belo proposto pelas capas de revistas. É alisamento de cabelo pra cá, aparelho dentário pra lá, puxar ferro o dia todo...

E, por tudo isso, proponho aqui que sejamos mais flexíveis com nós mesmos e nos cobremos menos. Precisamos ser mais generosos com nossos próprios corpos ao invés de nos aprisionarmos na visão que a sociedade e que nós mesmos temos deles. O corpo é a libertação, é a nossa existência física, feito de matéria, como tudo ao nosso redor. É o que nos designa e nos coloca neste mundo como seres humanos e não deve ser projetado como grades que nos impedem de manter relações com o mundo externo de forma saudável e harmoniosa. 


Para ilustrar um pouco, depois de tantos parágrafos (até cansativos, eu sei), proponho que vocês vejam dois vídeos idealizados pela DOVE, que julgo bastante sensíveis e adequados à proposta.

No primeiro, um profissional do FBI, artista forense, com mais de 28 anos de carreira, faz retratos falados de mulheres a partir de como elas definem sua própria aparência e depois de como outras pessoam definem a aparência delas. A ideia parte do seguinte princípio: "Imagine um mundo onde a beleza é uma fonte de autoconfiança e não de ansiedade". Os resultados são impressionantes!

O segundo vídeo mostra a transformação de uma mulher comum em uma supermodelo para uma propaganda de outdoor. Percebam como a beleza montada, sujeita à recortes e melhorias, acaba sendo tão adorada, apesar de tão superficial. 





Ninguém é um nariz afilado, um corpo cheio de curvas ou um rosto deformado. Nós somos um conjunto que, dentro de todas as suas particularidades e segmentos, se mostra interessante ou não. É óbvio que se sentir bonito, desejado e de bem consigo mesmo é maravilhoso. Mas é preciso lembrar que as coisas mais importantes e que mais atraem outras pessoas vão além da fronteira física. 

Não tenho amigos porque visto 34, nem por um nariz afilado. Tenho amigos porque para eles sou mais do que visto, mais do que calço, mais do que as minhas aparências dizem. Para eles, sou o que ninguém enxerga apenas olhando. E é isso que há de mais bonito: a entrega de cada um.

Que os padrões fiquem pra lá. Que cada um possa ser feliz vestindo 42 e tendo seios fartos. Que cada um possa sorrir de verdade tendo pernas finas, dentes tortos e ombros largos. Que os homens - para não dizer que eu os excluí - possam ser verdadeiramente lindos com suas barriguinhas preponderantes, seus ossos à mostra ou, que seja, com seus músculos naturais (ou nem tanto). Que sejam felizes como são, mesmo que busquem formas melhores de ser. Mas que busquem de forma saudável e por si mesmos.

E que sempre haja quem valorize tudo isso. 

destacada


  Para saber mais sobre um assunto tão vasto, fica aqui um pouco da opinião de quem também se atreveu a falar sobre o corpo em suas mais variadas perspectivas: PsicologadoComunicadoresOlhares sobre a estética masculinaO padrão de beleza corporal femininoA estética do corpo em tempos de mercadorização das formas físicasO padrão estético da mulher na mídia.


Espero que tenham gostado! Queria saber a opinião de vocês nos comentários: afinal, o corpo é uma máquina que precisa se submeter a um modelo opressor ou é nossa fonte de libertação das amarras sociais?

 
Au revoir,

Lari

7 comentários:

  1. Poucas vezes li algo tão contundentemente acertado como esse post seu, Lari. Concordo, em absoluto, com tudo o que você disse, e me atenho ao que Eduardo Galeano escreveu: o corpo é uma festa. E não sabemos, maioria de nós, aproveitar isso. Há beleza em todo ele, ainda que se exagere que estrias vão nos enfeiar, que a pele não está sublime, que há penumbras para nos disfarçar. O corpo pede claridade, pede para ser visto, tocado, sentido. Assim, passa a ser o palco da festa, o explodir dos sentidos em algo bom, prazeiroso, que nos completa e nos faz, realmente, sentirmos vivos.

    Parabéns pelo texto.

    Beijo!

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  2. Texto muitíssimo bem escrito, com os elementos certos, na dose certa. Foi na mosca!
    O que não foi na mosca foi a srtª. não ter avisado que tinha um blog, ou que escrevia tão bem.
    Hunf!

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  3. Algo em mim vibra e faz festa quando percebo que alguém perto de mim também escreve!! E que texto lindo Lari!! Incrível como temos uma ideia tão distorcida de nós mesmos que em muitos momentos do texto eu lia e a mente automaticamente já rebatia com pensamentos negativos acerca da aparência. Contudo, tudo o que vc ressaltou é algo tão verídico, somos todos tão lindos e perfeitos a nossa própria maneira, que não há como discordar, apenas ACORDAR. Lembrei das nossas discussões no niver de Samanda sobre as dificuldades muitas vezes de sermos compreendidas com o corpo que temos, e o seu texto se encaixa como uma luva! Não é o fato de ter um manequim 34 ou 40 e medir 1,50 ou 1,70 que prova q temos amigos! As pessoas que realmente nos amam o fazem pelo que somos no conjunto, não na aparência! Parabéns, Lari, espero mais textos lindos em breve ^^

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  4. Eitaaa...mentira que a Larissa também escreve...pow, aceitação do corpo e da sua alma, texto belo Lari!!

    Rodrigo Lopes

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  5. Oiiii, cheguei no seu cantinho *-*! E já estou seguindo-o. Me segue também para ambas compartilharmos nossas postagens?
    Um super beijo.

    http://www.expectativasreais.blogspot.com.br/2013/04/de-mulher-para-mulher-mais-comprinhas.html#comment-form

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  6. Gostei bastante, acho que vou usar no meu trabalho escolar.

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