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A menina que engolia palavras.

  • 3






Ela sempre falou bastante,
Com medo de que, num átimo, sua vida virasse lembrança,
E não tivesse tempo de dizer às pessoas tudo o que precisava.
Mas foi advertida de que não se pode ser assim.
Palavras criam expectativas, têm força, unem os homens ou fazem a guerra entre eles.
E foi com medo da expectativa, da força e da guerra, que ela decidiu calar-se.
Começou a engolir suas palavras compulsivamente,
Cresceu, inchou, quase sufocou, até que...
Um dia, sem mais espaço, as palavras transbordaram pelos seus olhos,
Até criar um pequeno lago,

Onde a menina decidiu que iria criar suas próximas palavras como peixes, 
pra não mais ter que engolí-las.





Indira Lima

E eu finjo ter paciência.

  • 2



Nos últimos dias a frase "Tenha paciência" tem virado um verdadeiro mantra, que as pessoas ao meu redor insistem em repetir pra mim.

É o tipo de coisa que dizemos facilmente a um amigo, a um parente, ou até mesmo a um desconhecido apressadinho no trânsito.

Mas, quando somos nós os "destinatários" da mensagem, a coisa não é tão simples.

Muita gente pensa que sou paciente, só porque faço trabalhos manuais minuciosos e que levam muito tempo pra ficarem prontos.

Mas ,isso não tem nada a ver com paciência.

Faço por prazer,sem pressa e ,muitas vezes, me encanto mais com o processo de criação do que com o próprio produto final.

Paciência pra mim é uma coisa diferente.

Quando penso em alguém paciente, imagino um homenzinho sentado numa cadeira no meio de uma sala pequenininha , encarando um relógio sem ponteiros, e esperando alguém abrir a porta da tal sala.

É como se antes de entrar na salinha, o homenzinho tivesse tentando de tudo, gasto todas as suas energias, até que alguém disse a ele: "Não há mais nada a ser feito.Sente nessa cadeirinha e espere."

O que mais me irrita nesse negócio de ser paciente, é que esse pode ser um estado permanente.Uma coisa é ficar plantado na fila do supermercado por 10 minutos.Ok, é ruim,desagradável, mas na pior das hipóteses você sabe que só ficará por lá ,no máximo, até a hora em que o supermercado fechar.

Outra coisa é esperar ser independente, esperar ser bem sucedido, esperar viver um amor...essas coisas não tem dia marcado ,prazo pra acontecer.São os relógios sem ponteiros.

Diante disso, cheguei à conclusão de que não tenho vocação pra ser homenzinho ( no meu caso,mulherzinha), que senta na cadeirinha e espera na salinha.

Não estou aqui dizendo que essa minha necessidade de ser mais "agente" do que "paciente" é algo do qual eu me orgulhe.Às vezes isso me ajuda, às vezes me traz problemas,mas sei que isso é culpa do modo como vejo a vida.

A intensidade com que vivo,ou pelo menos tento viver, meus dias na Terra, não me permite desperdiçar meu precioso tempo com esperas intermináveis.

Talvez isso seja só "coisa da idade",talvez não.

Verdade é que nem sempre dá pra agir, fazer o que dá na telha.Tem horas em que o jeito é respirar fundo, contar até 10,20, 30, 40...o importante é que uma hora a contagem acabe, é arregaçar as mangas e fazer algo pra mudar a situação.

Que haja paciência, mas que ela tenha limite!

Beijobeijo

Indira Lima



Sobre ser planta ou pedra.

  • 1






Sempre fui meio chata e metódica com uma porção de coisas .Adoro "planejamentos", listas, tabelas, gráficos...resumindo: Adoro papel!

Minha mãe diz que sou "burocrática de berço", porque eu vivia criando uma série de contratos e recibos pra ela assinar, não é à toa que fui estudar Direito.

 E ao longo da vida desenvolvi uma certa alergia à palavra "improviso", soa pra mim como algo precário, feito "a facão",como se diz aqui nas minhas bandas.

Mas, tem uma hora em que a vida não te dá tempo pra pegar o bloquinho de anotações e escrever qual o próximo passo. Ela te pega "pelo colarinho", te levanta a dois palmos do chão e diz na sua cara: "Tá vendo isso aí que você planejou? Apaga tudo e faz de outro jeito!".

No começo é desesperador. Pensar que todos os seus planos e metas milimetricamente desenhados vão direto pro lixo, porque é preciso dar lugar a outras ideias urgentemente.

Tão desesperador, que às vezes olho pra cima ( porque a visão do céu é sempre acolhedora, ou porque olhar pra baixo é meio "deprê"), e penso: "Universo, cê só pode estar de sacanagem comigo!".

Mas, cheguei à conclusão que isso deve ser uma espécie de teste, é como se,de algum modo, o Universo,Deus, Jah, Alá (ou seja lá o nome que você dá pra essa "força maior"), quisesse saber se estamos de fato "vivos" ou se estamos só fazendo figuração aqui na Terra.

Porque a maior característica dos "vivos" é a mudança. Por isso que pedra não é ser vivo, a coitada fica lá não vivendo sua não- vida pedregosa, a mercê do vento, da água, do fogo e do tempo.

Enquanto isso, até a mais primitiva das plantas está lá, criando folhinha daqui, projeto de raiz dali...

Deve ser isso!O Universo quer saber quer saber se estamos vivendo como pedras ou como plantas por aqui.

Eu me esforço pra viver que nem planta. 

Nem faço questão de ser um Jacarandá daqueles de respeito, topo ser planta de jardim, que é criada com um certo conforto, mas que sabe se esticar,se desdobrar pra fugir do sol de rachar ,que tenta se manter firme e forte quando se esquecem de aguar o jardim, que pode passar despercebida em meio às plantas ornamentais vistosas, mas que nem por isso se esquece de florescer.

E você? Já floresceu hoje?

Beijobeijo

Indira Lima


O que é ser uma mulher poderosa?

  • 2





Eis que conversa de fim de noite com uma amiga no Facebook começamos a falar sobre um tal manual de mulher poderosa que ela estava lendo.O bendito livro, pelo que pesquisei,tenta explicar porque os homens gostam das mulheres poderosas, e para isso, tenta explicar quem é a mulher poderosa.Segundo ele, é a mulher inteligente,independente, que não fica de "mimimi", que tem atitude.

Até aqui tudo muito bom,tudo muito bem.Aliás, bem demais pra ser verdade.

Comecei a refletir sobre o que é ser poderosa e cheguei à conclusão de que não tem muito a ver com dureza, com força, pelo contrário, Mulher que é poderosa mesmo,não tem medo de parecer frágil.

Só mostra que ela é tão bem resolvida,que pode se dar ao luxo de ficar na carne viva, de se mostrar por inteiro, contar tudo o que sente, porque depois,ela dá a volta por cima.
 
E mulher poderosa também não precisa de manual, porque ela sabe usar a razão e o instinto na medida certa.
 
 

 
 
Se até Xena, a Princesa Guerreira, chora, porque você não pode chorar?


Beijobeijo

Indira Lima


Sobre a arte de "se jogar".

  • 1



Tive uma infância feliz, com direito a férias na casa da avó, onde a mesa é sempre farta a qualquer hora do dia,onde o canto galo me acordava bem cedinho (contra a minha vontade,lógico), e onde eu vivi algumas das minhas grandes aventuras, no melhor estilo "Reinações de Narizinho".

Dessa época,lembro principalmente dos meus joelhos .Sim, joelhos. Estavam constantemente roxos ou ralados, denunciando minhas mais recentes travessuras e minha falta de jeito, mas nada muito grave.
Obviamente, isso não acontecia por negligência dos meus pais ,mas pelo fato de eles acreditarem que até mesmo cair era algo importante pra mim.

Lembro da minha mãe repetindo como um mantra: "Caiu? Levanta!".

Acho que isso influenciou bastante no modo como encaro a vida .É como se  aventuras estivessem todas ali, numa prateleira, pronta pra serem vividas, só esperando alguém pra tirá-las de lá.

Tem gente que olha pra prateleira como a criança pobre olha pra loja de brinquedos:Deseja muito ,mas acha que tudo aquilo está muito distante ,outros olham como o "mão- de vaca": Até gostariam de ter, mas acham que o preço a se pagar é muito alto e que talvez não valha a pena.

Mas, há ainda um tipo muito raro, que junta todos os trocados que tem no bolso,fica quebrado, mas leva a aventura!

E é nesse tipo de gente que eu deposito minha fé.Gente que conhece os riscos, mas que não abre mão do que quer por isso. Não estou falando aqui de gente inconsequente, que faz as coisas de qualquer jeito porque acha que é inatingível,mas daqueles que tem sonhos,convicções e que não se importam se a realização deles vai lhes custar alguns hematomas ou arranhões.

Porque no final das contas ,por mais profundo que tenha sido o corte, por mais dolorida que tenha sido a pancada, tudo cicatriza e volta a ser como era antes.O ser humano se reconstrói a todo momento, nosso corpo vive nos dando segundas chances, porque nossos espíritos teriam que ser diferentes?

Por isso,faço aqui o meu apelo: Se joguem na vida!Sem mais.


Beijobeijo


Indira Lima